A importância da Hallyu para a Coreia

안녕 안녕 여러분!!!~ 

Primeiro; obrigada por todo o retorno positivo! ♥ Tenho um carinho enorme pelo feedback de vocês.

Segundo; para quem gosta de Moda, comecei um blog novo essa semana, onde vou falar de moda, estilo, fazer review de visuais de ídolos, dar algumas indicações pessoais de música, filmes, livros, comida… Também é voltado para o universo sul-coreano, mas lá vai ser um blog mais pessoal. Para conhecer mais detalhadamente, acesse StyleTa.

Agora, vamos ao assunto da postagem de hoje; a importância da Hallyu para a Coreia.

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Quem lê, até pensa que a resposta seria “rios de dinheiro para o turismo sul-coreano,” já que a Hallyu ajudou a dobrar o número de turistas no país entre 2008 e 2013, quando o país recebeu 12 milhões de turistas e gerou nada menos que 617 mil empregos, mas depois dos textos sobre problemas sociais na Coreia como sexismo, homofobia e padrões rígidos de beleza, não é agora que vamos parar, não é mesmo?

O problema que vamos abordar dessa vez é, de fato, o preconceito com os estrangeiros. MAS CALMA; muitas pessoas compartilham meus textos dizendo “tá vendo como a Coreia não é perfeita?” Ela não é, mas a intenção dos textos não é de denegrir, mas de informar! Apesar de abordar mais o lado problemático da situação, em todo caso há o esforço de combater esses problemas. Então, por favor, não achem que a Coreia é um país xenofóbico-gordofóbico-homofóbico em todas as instâncias.


Primeiro, o que é Hallyu한류 (Han-riu; pronuncia-se rálliu) vem de  = Coreia e = fluxo, adaptado para “Korean Wave/Onda Coreana.” Foi o nome dado para o fenômeno da divulgação da cultura sul-coreana através de suas novelas, música, filmes e afins. Podemos dizer, ousadamente, que a Hallyu foi responsável por mostrar a Coreia do Sul no mapa.

Entre vários benefícios que a Hallyu trouxe à Coreia, o de maior importância foi, de fato, os estrangeiros, pois deu aos coreanos a oportunidade de conviver com pessoas das mais variadas culturas e etnias, iniciando, assim, o verdadeiro processo de globalização no país.


O primeiro de muitos.

O boom da Hallyu aconteceu mais gradualmente do que de uma vez — como um campo minado, cheios de booms — tendo vários pontos-chaves que marcaram o movimento; BoA e DBSK dominaram a Ásia, Super Junior, 2NE1 e Big Bang tiveram uma importância relevante em 2009 no ocidente, abrindo as portas para outros grupos se mostrarem internacionalmente. E Winter Sonata foi uma importantíssima novela coreana que auxiliou na propagação da cultura pop sul-coreana.

Hangeng (esquerda) usando uma máscara durante uma performance

Mas quando o K-POP era apenas POP, um episódio em particular colocou em questão um problema que até então não era problema. Hangeng, ex-integrante do grupo Super Junior, foi o primeiro chinês a debutar na Coreia. Como todo bom passageiro de primeira viagem, nem ele nem sua agência, SME, estavam cientes das leis coreanas sobre isso. Hangeng precisava não só de um visto específico para performar na Coreia, como apenas três canais de televisão permitiam a aparição de estrangeiros. Durante meses, Hangeng se apresentou com uma máscara, até que Heechul, companheiro de grupo, após uma performance, o motivou a retirar a máscara durante a transmissão do programa. Se isso teve ou não influência direta no desaparecimento dessa lei, não há informação, mas deve ter dado uma ajudazinha.

Ainda não era tão comum ter integrantes estrangeiros entre os grupos de K-POP, mas isso foi crescendo paralelo ao crescimento da Hallyu, como uma forma de incluir diversidade — e claro, uma forma de marketing em outros casos.

Para não misturar os assuntos, eu não vou falar de estrangeiros em grupos de K-POP, apenas precisava citar esse episódio do Hangeng. Hoje contamos com inúmeros integrantes não apenas com descendência coreana, mas sem relação alguma com a Coreia; chineses, japoneses, tailandeses, norte-americanos, australianos, canadenses, latinos… (Obrigada ao comentário da juhregins, que me lembrou do Jae do DAY6, que é argentino.) No começo, a aceitação por esses integrantes era tão rasa que eles sofriam bullying até mesmo pelas fãs dos grupos, como foi o caso de Zhoumi e Henry Lau, também do Super Junior, mas em contrapartida, integrantes coreanos também sofriam nas mãos dos anti-fãs, que foi um problema tão sério na Coreia entre 2005 e 2010 que renderia assunto para outro texto.

Exemplos de atitudes tomadas pelos anti-fãs na Coreia; Hangeng (chinês) recebeu um pastel contendo insetos mortos dentro, e Yunho (coreano), do grupo DBSK, recebeu uma garrafa de suco de laranja que, na verdade, continha super cola em seu interior.

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Kangnam (M.I.B), Jackson (GOT7) e Eric Nam

Felizmente, o cenário melhorou bastante e artistas não-coreanos como Kangnam, Jackson Wang, Eric Nam, que vieram do Japão, Hong Kong e Estados Unidos, respectivamente, hoje, fazem um sucesso inimaginável em terras coreanas. Sem dúvidas, essa aposta de incluir não-coreanos nos grupos foi um empurrão para o processo de conscientização.

[EDIT]

Quero apenas incluir a estreia da Alexandra ♥, norte-americana negra, que entrou para o grupo Rania.

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Preconceito VS Ignorância.

Dá pra dividir preconceito de ignorância? Em pleno 2015, a desculpa é até meio esfarrapada, mas não podemos ser tão rígidos e ignorar todos os fatores, se tomarmos por base alguns anos atrás, quando a Coreia não era exatamente um point turístico.

Como qualquer outro animal no planeta, vamos ficar curiosos e intrigados quando o diferente é colocado a nossa frente. Possivelmente, não vamos reter o instinto de encarar, observar, olhar com detalhes aquilo que desconhecemos, e por muitas vezes podemos estar, de fato, admirando aquela figura, mas a encarada ainda é uma encarada e pode ser mal interpretada. Vai dizer que nunca, nunquinha, você ficou olhando por mais tempo que devia pra alguém com algum cabelo, roupa, característica curioso? Isso é o que, muitas vezes, ocorre na Coreia. Mais do que preconceito, as pessoas ficam intrigadas com a pele negra no meio da multidão coreana, os cabelos ruivos, os corpos mais avantajados, os turbantes, etc… Por isso, se vier para a Coreia e receber algumas olhadas, não leve para o lado ruim de primeira.

Estrangeiros não vinham aos montes para a Coreia, então era mais comum lidar com essas situações do que atualmente. Claro, ainda acontece, mas é só andar pelas ruas mais badaladas de Seoul e desistir de contar quantos estrangeiros têm lá. Conviver com estrangeiros faz parte do dia-a-dia do sul-coreano agora, e qualquer grande mudança revela novos problemas, e aí sim podemos resolvê-los.

Estrangeiros sendo empregados na Coreia já levanta a questão do preconceito, ainda mesclado com uma ignorância injustificada, pois, uma coisa é relevar a olhada na rua da senhorinha que nunca viu uma pessoa negra na vida pessoalmente (porque sim, existem esses casos), outra coisa é recusar um profissional qualificado porque ele não é coreano, com a desculpa de que “vai assustar as crianças.” Se tratarem os estrangeiros como algo que as crianças devem ser protegidas de se relacionar, obviamente a interação delas com outras etnias vai ser limitada e cimentar mais ainda o preconceito na sociedade.

Tudo para crianças é novo e curioso, então a reação delas com estrangeiros, de medo ou receio, não se deve ao fato deles serem estrangeiros, porque pra criança, isso não importa, mas os pais e instituições que passam os currículos de negros, árabes e latinos pro lado são a maçã podre da colheita, porque eles sim agem conscientemente baseados no preconceito. Porque, claro, se você é um caucasiano loirinho, olho azul e cabelo loiro: você sim é um profissional em potencial.

Felizmente, isso não é algo impregnado na sociedade mais jovem, mas, infelizmente, ainda há uma porção relevante da população idosa que não aceita a vinda de estrangeiros para a Coreia. Dentre vários depoimentos, uma das frases que estrangeiros mais ouvem vindo de velhinhos na rua é “Volte para o seu país!”


Hipocrisia.

É estranho falar de preconceito com estrangeiros quando o país está em processo de crescimento global, recebendo cada vez mais turistas e atraindo cada vez mais profissionais das mais diversas áreas que querem se estabelecer no país. É contraditória a atitude pró-globalização, quando ela é mais apoiada da Coreia pra fora do que o exterior chegando à Coreia. E mais contraditório ainda quando os sul-coreanos mostram tanto amor à cultura norte-americana, mostram influências do inglês no coreano e americanização em música, moda e afins.

“É difícil porque, quando você vê os idols coreanos performando, você vê a influência da arte negra norte-americana, e nossa música e nossa dança, e ainda assim, somos insultados ao mesmo tempo em comerciais ou programas de televisão, quando eles tiram sarro de nós.”

Deíja Motley, Chicago

Verdade seja dita, a Guerra das Coreia se acalmou há pouco tempo, já que nunca teve um fim propriamente dito, precedida por uma era de caos com a dominação japonesa, que durou anos e implantou na sociedade a ideia da “raça pura.” Uma professora minha, quando falávamos de preconceito na Coreia, disse o seguinte; “Como país, como nação livre, a Coreia ainda é muito nova e tem muito o que aprender com o mundo.” Mesmo que seja difícil ter empatia por uma justificativa ao preconceito, precisamos entender que nem todos os países convivem com as mais diversas etnias — seja pela diversidade do povo ou pelos imigrantes — para ter, desde cedo, a consciência de que pessoas são as mesmas, independente de onde onde nasceram. Até porque, se num país com a diversidade do Brasil vemos diariamente notícias sobre racismo e preconceito, a Coreia não ficaria de fora. Porém, é fato, se quer que o mundo abrace a Coreia, é melhor a Coreia abraçar os estrangeiros.

“Muitos artistas do K-POP, como PSY e Park Jinyoung (JYP), mostram respeito e colaboram com americanos negros. Os que fazem comentários racistas agem assim por ignorância, não acho que seja por malícia ou preconceito fundamentado. Acho que são os jovens tentando mostrar que eles são legais e hip, e acho que vem disso. Eu espero.”

Kim Eunmee, do departamento de Estudos Internacionais da Ewha Womans University


A estética e o preconceito entre coreanos.

Já foi falado sobre padrão de beleza no blog, e como isso afeta a vida das pessoas aqui. Parte da crença de beleza absoluta é a pele branca, o cabelo liso, comprido e preto, o corpinho esbelto — sem curvas, sem carne, sem volume — e o rostinho de criança. Claro, o padrão de beleza para as mulheres, já que para os homens quase não se é falado sobre isso.

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O comediante Song Yeonggil nasceu com cabelo liso, mas seu cabelo foi formando cachos e agora tem essa aparência!

O que isso implica no preconceito? É assim que se impregna a ideia de que uma imagem tal é bonita e a outra não, e faz com que as pessoas torçam o nariz pra peles escuras, cabelos crespos, corpos volumosos… E não, não estou falando dos estrangeiros, mas dos coreanos que nascem com tais características. Tem que ser muito ingênuo pra achar que coreanos são asiáticos de pele clarinha, cabelo escorrido e 0% de gordura, mas quando só se vê os ídolos pela tela do computador, a gente pode aceitar a ingenuidade, o problema é quando os próprios coreanos parecem cegos às características do próprio povo.

Tem coreano branco, moreno, MUUUITO moreno, com cabelo escorrido cacheado, crespo, magrinho, gordinho, etc… Claro que algumas características são mais predominantes que outras, mas garanto pra vocês que tem mais coreano bronzeado andando por aí do que com tons leite do BB Cream que eles usam.

O problema dos coreanos é não aceitar nem mesmo quem eles são, as próprias diversidades, as próprias características, e exaltar padrões que poucos alcançam, condenando o restante esmagador da população.

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Convidados contam sobre as dificuldades que encaram com o preconceito.

No programa Hello Counselor, em um antigo episódio, dois convidados vão levando um problema de mesmo aspecto: o preconceito que sofrem por serem diferentes. Um, um coreano que nasceu loiro, outro, um queniano que mora na Coreia. Mesmo que o fato que gerou o coreano loiro tenha sido a falta de melanina, foi impossível fugir do julgamento por não ser um coreano dentro dos padrões.

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Hyorin, Hakyeon e Kai; peles morenas no entretenimento que precisam lidar com brincadeiras e comentários impertinentes.

Muitos idols que tem a pele mais escura que a maioria precisam lidar com a cor da pele deles sendo assunto de brincadeiras não só nos programas de televisão, mas muitas vezes das fãs, e nem sempre brincadeira. Então, podemos concluir, no mínimo, que o problema todo é gerado porque os coreanos ainda não sabem lidar com o diferente e com uma perspectiva global e inclusiva das pessoas. Além do sempre infeliz padrão de beleza, que é um retrocesso mundial.

“Use um pouco de creme… Seu rosto é muito escuro.”


Mas o cenário está mudando! ♥

Felizmente, não só mais estrangeiros estão batendo de frente com o problema e combatendo, como há sim um esforço da própria Coreia de vencer essa fase. Do jeito que eu falo aqui, às vezes a situação parece sem esperança alguma, mas a verdade é que o cenário anda mudando sim.

Nos últimos anos, mais e mais estrangeiros fazem sucesso na Coreia. Não estou falando de idols, nem incluindo descendentes de coreanos, mas 100% 외국인 (uê-gu-kin; estrangeiro em coreano.) Antes, podia-se contar nos dedos de uma mão e, agora, precisa pegar umas mãos emprestadas. Eles, junto aos idols estrangeiros, ajudam a solidificar a imagem de uma Coreia globalizada.

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비정상회담 (Eng; Abnormal Summit. Pt; Cúpula Anormal), um elenco de estrangeiros discutindo sobre cultura e problemas pessoais ou mundiais. O programa já está na segunda leva de estrangeiros, e agora possui um brasileiro, Carlos Gorito, compondo o time. O tema do programa é “Ajudar a vencer o preconceito!”

Além disso, os estudantes que se arriscam em fazer sua graduação ou pós no país, ou mesmo apenas aprender o idioma, também dão uma ajuda enorme nesse processo, principalmente quando não se concentram em Seoul e exploram outras cidades, podendo levar sua “estrangeirice” para todo o canto da Coreia.

No fim, muitos têm conhecimento da Coreia e se interessam em conhecer a Terra do Kimchi através do K-POP, dramas, filmes e tudo o que a Hallyu engloba e, por isso, a importância da Hallyu para a Coreia vai além do retorno financeiro, ela ajuda, um passo de cada vez, a tornar a Coreia um lugar melhor para os coreanos e para os estrangeiros, ou seja, para as pessoas.

Por isso, não deixem esses problemas abalarem o carinho que vocês têm pela cultura coreana, não desistam dela, porque sozinha ela não vai mudar.


Novamente, foi um assunto que, se eu decidisse falar muito detalhadamente e abordar todos os aspectos e conteúdo que o tema exige, resultaria numa leitura muito pesada, um texto muito extenso, e esse não é o intuito do blog. Desculpem qualquer pensamento atravessado que eu possa ter expressado, espero a compreensão de vocês para lidar com um assunto tão delicado, mas tomara que tenham gostado! ♥ 

Até!

Fonte das citações.

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6 comentários sobre “A importância da Hallyu para a Coreia

  1. Cara, que texto maravilhoso <3 Sério, sem outras palavras para descrever ele, você explicou tão bem a situação e só aumentou minha vontade de ir visitar a Terra do Kimchi kkkkk
    Ah, quando você estava falando dos estrangeiros nos grupos de K-Pop, perguntou se um dia não veríamos um latino, mas na verdade já tem um: o Jae do DAY6, ele é argentino :)

    • Menina, num é que eu esqueci dele??? Eu mesma fiquei super empolgada quando soube, mas como é só um, acabei esquecendo. Vou editar o post. ♥ Fico muito feliz que tenha gostado!!~ Venha mesmo, a hospitalidade dos coreanos, apesar de tudo, é adorável. Os erros que eles cometem não são maiores que qualquer outro país.

  2. Texto super corerente,adorei Umi <3 como sempre.
    Realmente só se pode mudar algo tão enraizado na cultura de um pais com a ajuda interna e externa.
    Concordo que é uma certa hipocresia fazer uso de influências de varias culturas,podemos ver isso claramente nos conceitos do k-pop e nas danças,e na constante contratação de coreografos negros pelas empresas,mas isso também tem um outro lado,que é recorrer a influências culturais pode ser um jeito de aproximar as culturas.Enfim,acho que todo pais está em constante transformação e globalização,com a internet tudo ficou muito mais acessível e isso influencia os jovens coreanos que vêem com frequência as outras culturas e tendem a enchergar com naturalizade.

    Umi vc sabe onde posso ver o Hello Conselor? sabe de algum lugar que disponibiliza? porque é um programa que vale muito a pena assistir. .

    Beijo Umi,continue com os textos hein <3

  3. Muito bom, sabe o que eu vejo pouco… na realidade só li um comentário em um vlog do brigadeiro apimentado sobre como pessoas com necessidades especiais são vistos e tratados la. Por ler bastante sobre o país (acho) que tenho uma noção (ruim).

    • Stella, eu vou tentar procurar sobre o assunto. Também nunca vi muito sobre o assunto, se eu conseguir achar material e entender bastante pra poder fazer um post, pode ter certeza que farei!

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